As sombras crescentes: Dívida americana, guerras por recursos e o fim do império antes de 2045

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Os Estados Unidos, superpotência econômica e militar das últimas décadas, entraram numa fase de crise fiscal e imperial que pode antecipar o fim de sua hegemonia global antes de 2045. A combinação de dívida explosiva, receitas insuficientes, despesas obrigatórias em alta e guerras caras por recursos estratégicos desenha um cenário que lembra o declínio de Roma e do Império Britânico. Projeções oficiais do Congressional Budget Office (CBO), somadas a intervenções mais recentes na Venezuela e ao padrão na Ucrânia, mostram que o “império americano” pode ruir menos por choque militar e mais por matemática fiscal e ambição imperial insustentável.

Em tempo real, o U.S. Debt Clock e outros painéis mostram a dívida bruta dos EUA ultrapassando US$ 38,5 trilhões no fim de 2025, avançando segundo a segundo. Esse montante equivale a cerca de 125–130% do PIB em 2025, com projeções em torno de 131–134% do PIB para 2026–2027, de acordo com modelos como os da Trading Economics.​

É importante distinguir duas medidas de dívida:

  • Dívida em mãos do público (debt held by the public): o que o governo deve a investidores, fundos, estrangeiros etc.
  • Dívida bruta (gross federal debt): inclui a dívida em mãos do público + o que o governo deve a si mesmo (fundos de previdência, Social Security e outros títulos intragovernamentais).​

Hoje, a dívida em mãos do público está em torno de 98–100% do PIB, enquanto a dívida bruta se aproxima de 125 - 130% do PIB, sendo essa diferença interna principalmente composta por títulos detidos pelos próprios fundos governamentais.​

No ano fiscal de 2025 (outubro de 2024 a setembro de 2025), o déficit gira em torno de 6% do PIB, com 6,2% projetados para o ano, refletindo receitas federais próximas de 17% do PIB e despesas totais em cerca de 23–24% do PIB. A maior parte do crescimento do gasto vem de programas obrigatórios (como Social Security e Medicare) e de juros crescentes sobre a dívida, cujo serviço já beira um trilhão de dólares anuais.​

Essa disparidade estrutural – receitas em torno de 19% do PIB no longo prazo, contra despesas avançando para mais de 26% do PIB – é o coração da crise: consumo automático de espaço orçamentário, deixando pouco para defesa, infraestrutura, ciência e inovação, pilares tradicionais do poder americano.​

Projeções CBO: De 100% a 156% (e além)

O CBO trabalha principalmente com a métrica de dívida em mãos do público, que considera mais relevante para medir risco de mercado e pressão sobre juros. Na sua projeção de longo prazo (2025–2055):​

  • A dívida em mãos do público sobe de cerca de 100% do PIB em 2025 para
    • 107% em 2029
    • 118% em 2035
    • 136% em 2045
    • 156% em 2055.​
  • O déficit anual cresce de aproximadamente 6,2% do PIB em 2025 para 7,3% do PIB em 2055.​
  • As despesas totais vão de 23,7% do PIB para 26,6% do PIB, enquanto as receitas se arrastam em torno de 19–19,5% do PIB.​

Hoje, a diferença entre dívida em mãos do público (100% do PIB) e dívida bruta (125% do PIB) é de pouco mais de 20 pontos de PIB, mas essa diferença tende a cair ao longo do tempo, pois os fundos intragovernamentais perdem peso relativo. Isso quer dizer que:​

  • Se a dívida em mãos do público bate 136% do PIB em 2045, é razoável esperar uma dívida bruta total na faixa de 150–160% do PIB nesse período.​
  • Em 2055, com dívida em mãos do público projetada em 156% do PIB, a dívida bruta pode se aproximar ou ultrapassar 170% do PIB, ainda que o CBO não publique de forma tão destacada esse número agregado.​

Caso cortes de impostos sejam prorrogados sem compensações e novas medidas de gasto “populistas” avancem, análises indicam que a dívida em mãos do público poderia ultrapassar 170% do PIB por volta de meados da década de 2050, o que implicaria uma dívida bruta ainda mais elevada. Paralelamente, os juros sozinhos tendem a consumir mais de 8% do PIB em 2055, acumulando dezenas de trilhões de dólares em pagamentos ao longo de 30 anos – mais do que o PIB anual atual.​

Estudos empíricos sugerem que cada aumento de 10 pontos na relação dívida/PIB reduz o crescimento potencial em cerca de 0,2 ponto porcentual ao ano, o que significa que uma trajetória para 150–170% de dívida bruta/PIB tende a comprimir investimento privado, travar produtividade e reduzir drasticamente a capacidade de resposta a crises.​

Guerras por recursos: De Iraque e Afeganistão à Ucrânia

Em paralelo ao problema estrutural dos gastos obrigatórios, os EUA vêm acumulando guerras e intervenções externas vendidas politicamente como “investimentos” em segurança e acesso a recursos, especialmente petróleo, gás e minerais. A experiência recente mostra que esses conflitos raramente “se pagam”; ao contrário, adicionam camadas de dívida e juros que se arrastam por décadas.​

O projeto Costs of War, da Brown University, estima que as guerras pós-11 de setembro (Afeganistão, Iraque e outros teatros relacionados) já custaram ao menos US$ 8 trilhões, somando gastos militares diretos, reconstrução, assistência a veteranos e encargos futuros. Só Iraque e Afeganistão, somados, são estimados em trilhões de dólares, o que, diluído ao longo de anos, contribuiu significativamente para a escalada da dívida americana.​

No caso da Ucrânia, desde 2022 até 2025, o apoio total dos EUA – em ajuda militar, econômica e humanitária, além de custos indiretos de reposição de estoques e mobilização de forças – já ultrapassa facilmente a casa das centenas de bilhões de dólares. Enquanto o discurso oficial fala em “defesa da democracia”, análises independentemente apontam também interesses em rotas de gás, equilíbrio energético europeu e acesso a minerais estratégicos ucranianos.​

Essas guerras e apoios prolongados pressionam o orçamento de defesa e empurram o déficit para patamares elevados (3–4% do PIB apenas com gastos militares em alguns anos), ao mesmo tempo em que aumentam a percepção de risco e, portanto, o custo de rolagem da dívida. Em vez de “investimentos que se pagam sozinhos”, o histórico revela uma espécie de bola de neve fiscal alimentada por decisões estratégicas externas.​

Venezuela 2026: O novo Iraque?

A ofensiva americana na Venezuela, iniciada com sanções e escalada para bombardeios e operações especiais, representa um novo capítulo desse padrão de guerra por recursos no século XXI. Em janeiro de 2026, forças dos EUA realizaram ataques a alvos em Caracas e regiões estratégicas, culminando na captura de Nicolás Maduro, em uma operação apresentada oficialmente como combate ao “narcoterrorismo” e a um regime corrupto.​

Em declarações subsequentes, Donald Trump foi ainda mais explícito: afirmou que os EUA vão “run the country” – isto é, administrar a Venezuela – até que seja possível uma “transição segura, própria e criteriosa”, sinalizando um protetorado de fato sob tutela americana. Além disso, indicou que grandes petroleiras americanas seriam chamadas para investir bilhões na “reconstrução” do setor, argumentando que “não vai custar nada” ao contribuinte, pois o próprio petróleo venezuelano pagaria a operação.​

A Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris, além de minerais relevantes como coltan e ouro. Desde 2025, reportagens já destacavam que o petróleo era prioridade central na estratégia americana em relação ao país, tanto nas sanções quanto nas pressões diplomáticas, antes mesmo dos bombardeios.​

No curto prazo, o custo militar e logístico dessa intervenção é facilmente estimado na casa de dezenas de bilhões de dólares – algo como US$ 50 bilhões ou mais – entre ataques, deslocamento de tropas, operações especiais, ocupação e medidas emergenciais. Mesmo que parte seja compensada por contratos futuros de petróleo, a experiência de Iraque e Afeganistão sugere que o saldo líquido tende a ser de mais dívida, mais compromissos de longo prazo e mais instabilidade.​

O Império em 2045: Entre juros, petróleo e matemática

Somando todos esses elementos – envelhecimento populacional, programas obrigatórios em expansão, juros ascendentes e guerras por recursos – a trajetória projetada pelo CBO é de dívida em mãos do público saltando de 100% do PIB em 2025 para 136% em 2045 e 156% em 2055, com a dívida bruta total potencialmente indo para algo em torno de 150–160% do PIB em meados da década de 2040.​

As implicações para o “império americano” são profundas:

  • Domínio militar: o orçamento de defesa disputa espaço com juros, aposentadorias e saúde, enquanto rivais como China expandem capacidades militares e tecnológicas com base fiscal relativamente mais sólida.​
  • Hegemonia econômica: o dólar passa a ser questionado como reserva segura na medida em que a dívida americana se afasta ainda mais da média histórica (cerca de 50% do PIB nas últimas décadas), abrindo espaço para alternativas regionais e arranjos financeiros apoiados por blocos como os BRICS.​
  • Poder brando: a narrativa de guerras “por petróleo” e intervenções com discurso de “governar” países até a transição corrói a legitimidade moral dos EUA, lembrando o desgaste britânico pós-Segunda Guerra, quando o fardo da dívida e o custo do império aceleraram o declínio da libra e da influência global do Reino Unido.​

Sem reformas profundas – que incluam revisão de benefícios, ajustes em Social Security e Medicare, aumento de receitas e, sobretudo, contenção de novas aventuras militares caras – tanto o CBO quanto organismos fiscais independentes classificam a trajetória americana como “claramente insustentável”. A intervenção na Venezuela, assim como o modelo de apoio caro à Ucrânia com expectativa de “reembolsos” em recursos e concessões, tende a alimentar, e não aliviar, essa espiral de endividamento.

Se o império americano ruir antes de 2045, é provável que o gatilho não seja uma única derrota militar, mas um acúmulo de decisões fiscais e geopolíticas que ignoraram a aritmética básica: juros compostos, crescimento anêmico e guerras por recursos podem se revelar mais letais do que qualquer exército adversário.​

E se os EUA quebrar? O choque global de um default americano

Se essa trajetória “claramente insustentável” culminar em uma crise de solvência ou mesmo em um default parcial entre 2045 e 2055, o impacto não ficará restrito aos EUA: seria um terremoto sistêmico na economia global. Títulos do Tesouro americano são hoje a espinha dorsal do sistema financeiro, servindo como principal ativo “livre de risco”, colateral de operações, reserva de bancos centrais e base de precificação para praticamente todos os demais ativos. Um colapso de confiança nesses papéis provocaria uma liquidação em massa, quebra de instituições altamente expostas, disparada de juros globais e uma fuga desesperada para qualquer alternativa de reserva – ouro, commodities, outras moedas fortes ou mesmo arranjos regionais.​

Numa situação em que os EUA precisassem cortar gastos à força por terem perdido acesso normal a financiamento, o choque se espalharia por comércio, emprego e investimento em todo o mundo: recessão profunda, aperto de crédito e retração de fluxos de capital atingiriam tanto países ricos quanto emergentes, inclusive aqueles que hoje se beneficiam da liquidez em dólar. Ao mesmo tempo, a perda de credibilidade fiscal aceleraria processos de desdolarização já em curso, com bancos centrais realocando reservas e blocos como BRICS e União Europeia buscando consolidar alternativas ao eixo dólar–Treasury, o que reduziria de forma duradoura o “privilégio exorbitante” americano de financiar seus déficits no próprio papel-moeda que o mundo inteiro é obrigado a usar.

Um mundo sem âncora: emergentes como amortecedor, não como salvadores

Mesmo que o império americano entre em colapso fiscal entre 2045 e 2055, o resto do mundo não parte do zero: economias emergentes como China, Índia, Sudeste Asiático, Brasil e outros já respondem por mais da metade do PIB global e por grande parte do crescimento mundial recente. Projeções até 2030 indicam que China e Índia, sozinhas, podem responder por cerca de 40% do incremento do PIB global e adicionar trilhões em consumo anual, criando uma massa de demanda interna que não existia em crises passadas como 1929 ou 2008.​

Esse aumento de consumo e integração entre emergentes pode amortecer parte do choque de um colapso americano, mantendo fluxos de comércio Sul–Sul, sustentando cadeias regionais e oferecendo alguma âncora alternativa de crescimento após a primeira onda de pânico financeiro. No entanto, uma crise de dívida dos EUA e do dólar é, por definição, um choque sistêmico de financiamento: congela crédito, derruba o comércio global e força fuga para qualquer porto visto como seguro, afetando também os emergentes, que ainda dependem de mercados desenvolvidos, financiamento em dólar e cadeias globais integradas.​

Na prática, um cenário de default ou quase-default americano provavelmente teria duas fases: primeiro, um “terremoto” que atinge todos os blocos – desenvolvidos e emergentes – via colapso de confiança em Treasuries e reprecificação de risco; depois, uma lenta reorganização em que os países com forte mercado interno e laços regionais (China, Índia, parte da Ásia, América Latina) puxam a recuperação e aceleram a transição para uma ordem econômica mais multipolar. Os emergentes podem, assim, reduzir a duração e a profundidade da crise global, mas não eliminar o impacto inicial de um império que ignorou por tempo demais a aritmética básica de sua própria dívida.

Andre Limart 

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